Adormecido


A água
O vento
Cimento
Relento
A poeira
O tempo
As solas
Pisando
Sapatos
De Ingratos
Íngremes Pedras
Olhares vazios
E solidão
Na escuridão
Com sua trovoada
Batendo
Impiedosamente
No homem
Adormecido
Sobre a
Calçada.

4ª Bienal do Livro de São José do Rio Preto


Está sendo realizada em São José do Rio Preto, a 4ª Bienal do Livro, que vai do dia 30 de abril, ao dia 9 de maio. A Bienal que marca presença na Swift, localizada perto da Represa Municipal, conta com palestras, exposições, amostras de cinema, e a presença de muitos artistas literários.

No último domingo, fui conferir a Bienal, e logo de cara vi que neste ano a organização da maior feira literária do Noroeste paulista supera, e muito, a do ano passado, que foi realizada na Biblioteca Municipal, um lugar menor, menos arejado, e sem os eventos que estão sendo realizados este ano.

Logo que cheguei na Swift, caminhei um pouco pelas
stands de livros, e para meu agrado encontrei vários clássicos da Língua Portuguesa a preço de banana, literalmente. Acabei comprando a obra Dom Casmurro, do grande Machado, por apenas (imaginem só!) R$ 3,00. Apenas, três contos, minha gente! Fiquei ultra feliz, e carreguei meu livro de capa estampada com os olhos oblíquos de Capitu, até o início da Palavra em Cena, com a presença de Antônio Calloni, e a leitura de poemas feita pelo próprio.


No horário marcado fui até o espaço reservado para a palestra. O salão já estava lotado, e consegui sentar em uma das últimas cadeiras. Logo em seguida, o ator e poeta Calloni, entrou no recinto, sentou-se numa cadeira colocada em cima do palco, e fez a leitura dramática de diversos poemas de sua autoria. Vários temas foram abordados, dentre eles: o universo infantil, a maternidade, a própria poesia, e claro, o amor.


A palestra durou cerca de quarenta minutos, e logo após, houve uma entrevista com o palestrante, e uma bateria de perguntas feitas pela platéia. Assim que a Palavra em Cena chegou ao fim, fui correndo até Antônio Calloni, a fim de conseguir um autógrafo ou foto. Eu era a última da fila, e tinha em mente uma pergunta sobre o filme Anjos do Sol, filme este que revelou Calloni para mim, como um dos grandes atores brasileiros.

A fila andou, e minha vez chegou. Câmera numa mão, papel e caneta em outra, e uma pergunta formulada, reformulada e mastigada diversas vezes em minha mente. Distrai-me um pouco, e quando o vejo, ele estava indo embora com uma mochila nas costas. Pedi uma foto, enquanto agitava a câmera no ar, e ele, muito simpático, atendeu meu pedido, tirou uma foto comigo, e com meus amigos, e ainda autografou minha agenda. Cheia de alegria, me esqueci da pergunta, e fiquei ali parada, esperando uma nova Bienal, para uma nova palestra com o grande ator, e poeta Calloni.

Além da presença de Calloni, a 4ª edição da Bienal do Livro, contará com a presença de Pedro Bandeira, hoje à noite às 19:00 hrs, Augusto Cury amanhã, Professor Pasquale Cipro Neto na quinta, Moacyr Scliar na sexta-feira, e no sábado Zé do Caixão e Mário Prata, além de muitos outros. Para conferir a programação completa da 4ª Bienal do Livro em São José do Rio Preto, acesse: http://www.bienalriopreto.com/

Vale a pena também dar uma olhada no site de Antônio Calloni: http://www.antoniocalloni.com/
Confira, e boa leitura!

Obra-Prima Brazuca

Hoje assisti ao filme brazuca: "Mauá - O Imperador e o Rei". O longa foi lançado em 1999, e conta com a direção de Sérgio Rezende, sendo uma obra-prima do cinema nacional.


Abordando importantes fatos históricos, como: a implantação da Tarifa Alves Branco, O Segundo Império, a Lei Eusébio de Queirós que aboliu o tráfico negreiro, a Guerra do Paraguai e do Uruguai, Paulo Betti no papel do protagonista - O Barão de Mauá, nos leva a uma viagem de volta ao passado, num Brasil Imperial, de escravos, café e Absolutismo.


O filme conta a história de Irineu Evangelista de Souza, que mais tarde, ficaria conhecido como Barão de Mauá, passando por sua infância, juventude, enriquecimento e falência.


Logo no início da trama, Mauá ainda criança, tem de se mudar para o Rio de Janeiro, devido a morte de seu pai, e ao casamento de sua mãe com outro homem. Indo morar com seu tio, Mauá passa a trabalhar de caixeiro, mantendo um relacionamento amigável com os escravos de seu patrão. Ainda jovem, adquire uma postura abolucionista, recusando-se a adquirir escravos, e mostrando-se favorável a lei Bill Aberdeen, criada na Inglaterra, que visava encerrar com o tráfico negreiro.


Considerado o primeiro grande empresário brasileiro, o liberalista Mauá, possuia a simpatia de alguns, e a antipatia de outros, como D. Pedro II. Arrojado em suas ideias, o Barão visava trazer o progresso para o Brasil, com a implantação de ferrovias que ligassem os estados, e garantissem o transporte de mercadorias, a industrialização, a produção de navios, comunicações telegráficas e bancos.


Ainda jovem, casa-se com sua sobrinha May (Mallu Mader), com quem teria doze filhos. Morre vítima da diabetes, aos 74 anos de idade, poucas semanas antes da Proclamação da República, após ter quitado todas suas dívidas.


O filme é um retrato brasileiro do século XIX, e conta um um belíssimo cenário, trazendo cenas no Rio de Janeiro e na Inglaterra, e explorando diversos fatos que fazem parte da História do Brasil.


Uma genial obra-prima, tanto para estudo, como para apreciação. Vale a pena assistir!

Coisas Sem Explicação


Eu não sei o que levou-me a me apaixonar por você. Talvez seja o fato de que seus negros olhos permitem que eu me enxergue no fundo de suas íris imaculadas. Pelo fato de que seu timbre me faz bem, que sua saliva tem um bom gosto e suas mãos um excitante toque. Talvez seja por todas estas coisas juntas, talvez não. Sinceramente não sei. Não sei porque tu me arranhas, me assanha, me mata e me renasce tantas vezes. Não sei porque. Mas só com você me sinto plena, serena, selvagem, menina e mulher. Minhas pernas tremem, me amoleço, me aqueço. E quando tu me perguntas porque te amo, eu rio, porque não sei. Não sei explicar. Acho que para essas coisas, a gente não acha explicação. Essas coisas a gente não se explica, simplismente sente, agudamente, no fundo da alma, palpitante, intensamente.
Então calo-me, mas não se preocupe comigo, é apenas um modo de ouvir o silêncio falar por nós, de ouvir sua respiração, e o vento arrastando as folhas frias pelas calçadas de concreto. O silêncio se faz tão puro, que as palavras tornam-se irrelevantes. Ouço-te neste silêncio intenso. E é nessa intensidade que vou vivendo, sentindo-te. Encontrando na nossa imperfeição, o perfeito. Remendando tantos medos, rasgando tantos breus, tantos tu's e tantos eu's. Seguindo lentamente, por entre sombras, e sóis, enquanto olho-te de perto, e seus olhos se borram, e seus lábios se abrem e sorriem.


Não sei explicar. Sinceramente não sei. Mas, acredito que essas coisas, a gente acaba chamando de amor.

Definições Vãs


Sou petulante, birrenta, metida e chata demais. Tenho um rei na barriga, e mais duas rainhas. Gosto de achocolatado quente ou frio, dependendo do meu humor. Prefiro o confortável ao elegante, por isso sou a favor do uso de tênis, não de saltos. Ando olhando para o céu, talvez porque meu mundo seja a lua. Se eu me desse bem com a matemática e a física, seria astrônoma. Sou de julho, canceriana chorona, dramática e sentimental. Não sei fazer amigos. Não sou boa de papo. Sou apaixonada pelo diferente, pelo inusitado. Gosto de tomar água e comer arroz. Sou mais xamãs que médicos. Prefiro terra a asfalto. Tomo chuva sempre que posso. Conto as estrelas sempre que as nuvens permitem. Sou complicada. Costumo encontrar a perfeição no imperfeito, no rasurado; lá estão minhas palavras rabiscadas à tinta. Sou boazinha demais, mas não abuse, ou verá meu outro eu. Prefiro os vilões, mas sempre torço pros mocinhos no fim. Não sou hippie, nem roqueira, nem indie. Sinceramente nunca consegui me identificar plenamente com quaisquer grupos, nunca consegui me entender.

Às vezes sofro comigo mesma. Sou meu maior orgulho, e minha maior decepção também. Sou insegura, mas algumas vezes posso me achar a dona da vez. Sou contraditória. Leio ficção. Gosto de Beatles, Nirvana, Hole, Sigur Ros, Radiohead, Chico Buarque e Lady Gaga.

Sou complexa, mas posso parecer tão simples. Um dia viajarei para a Amazônia., tomarei tequila até desmaiar, publicarei um livro e comprarei uma guitarra Les Paul. Um dia comprarei e lerei Cosmos (quando voltarem a editá-lo). Um dia irei a um show de folk-metal... Farei isso, se tudo der certo.

Tudo o que eu já fui me interessa, e muito, porque o que sou deriva do que fui. E o que sou? Não sei. E o que fui? Também não sei, e sinceramente prefiro não saber. Fui tantas coisas, tantos nadas e tantos tudos. Tão moderna e tão antiquada. Isto ainda sou, por enquanto, já que sou total desconhecedora do próximo instante. E é por isto que acho a vida tão fantástica: ela é uma caixinha de surpresas. Ela é miraculosa, e o miraculoso me atrai.
Pareço tranquila, mas sou um turbilhão, feroz. Sou inconstante. Escrevo textos, e depois rasgo-os e jogo-os fora. Nunca parecem tão bons naquele instante, mas se os guardo até o dia seguinte, eles se transformam num bom texto. Falo palavrões e gosto dos Beatniks. Chega. Parerei. Estou enjoada de mim. Assumo. Sou uma garota de limites, ou pelo menos tento ser. Gosto de falar de mim. Síndrome de piseudo-escritor egocêntrico, anti-reforma ortográfica. Enjoei. Vou me esfacelar. Até mais. Defini vagamente, porque penso que sei algo, mas na real, não sei nada.


De mim para mim.


Escrito à moda antiga, com tremas e chorumelas, numa noite obscura e confusa, ao som do silêncio.

O Trovador Solitário



Há exatos cinquenta anos, nascia no Rio de Janeiro, Renato Manfredini Júnior, mais conhecido como Renato Russo. Um trovador solitário, poeta e líder de uma das maiores bandas brasileiras: Legião Urbana.

Na infância, era conheItálicocido como Juninho. Garoto introvertido, que rabiscava com Giz. Nos tempos da ditadura militar, mudou-se para Brasília, e encantou-se por ela. Comoçou a ter aulas de violão na adolescência e tornou-se líder da "Fordy Second Street Band", que por sinal, era aclamada pelo sucesso, e também era imaginária.

Ao completar dezoito anos, Renato assume sua homossexualidade. Algum tempo depois, começa a lecionar Inglês, e a cursar Jornalismo. E em 1978, funda sua primeira banda real: Aborto Elétrico. Inicialmente tocava baixo, mas quando André Pretorius, até então guitarrista da banda, foi prestar serviço militar na África do Sul, Renato troca o baixo pela guitarra. E nesta mesma época de "punk elétrico" foram compostos os hits Que País é Esse? e Geração Coca-Cola, tornando-se hinos de uma geração revolucionária.

A banda de punk-rock, Aborto Elétrico, foi "abortada" em 1982, devido a desentendimentos entre seus integrantes e por uma baqueta atirada pelo baterista da banda. Fê Lemos, Ico Ouro-Preto, Flávio Lemos e Renato Russo, inspiraram o surgimento de várias bandas, dentre elas destacam-se: Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.

Com o fim da banda Aborto Elétrico, Renato Russo, começa a fazer aprensentações solo, se auto-denominando como "Trovador Solitário". Mas esta solidão musical durou pouco tempo. E como Renato queria mesmo era formar uma nova banda, em 1982 nascia a Legião Urbana.

Com treze álbuns lançados, e mais de vinte milhões de discos vendidos, a banda Legião Urbana, foi uma das bandas brasileiras que alcançaram um maior sucesso. Inspirado nos Smiths, Cure e Joy Division, Renato compunha as canções da Legião.

A formação original da banda, até então, não apresentava o renomado Dado Villa-Lobos na guitarra. Dado passou a integrar a banda em apenas 1983, com a saída de Eduardo Paraná, e logo depois de Ico Ouro-Preto, irmão de Dinho Ouro-Preto. A última e mais conhecida formação da banda de Renato Russo, traz o mesmo como violonista, tecladista, baixista e vocalista, Dado Villa-Lobos na guitarra, violão, além de alguns instrumentos de percurssão, e Marcelo Bonfá, baterista e percussionista.

A banda atingiu seu ápice em 1988, após o lançamento de hits como: Eduardo e Mônica, Índios, Quase sem Querer, Faroeste Caboclo e Angra dos Reis. Em 1989, vieram novos hits, como Pais e Filhos e Monte Castelo. Neste mesmo ano, Renato tornou-se pai de Giuliano, fruto de uma relação com uma fã.

Em 1991, lançou o disco V, e descobriu ser soropositivo. Num momento complicado de sua vida, o músico enfrentou problemas com o alcoolismo, e na relação com o namorado americano. Depois de um disco melancólico, Renato iniciou seu tratamento para se livrar da dependência química. No disco de 1993, O Descobrimento do Brasil, os sentimentos se mesclam e se confundem, trazendo fortes críticas, e sendo considerado por muitos fãs, um álbum delicado.

Nos últimos anos de vida, Renato produziu compulsivamente. Lançou discos solos em outros idiomas, entre eles o italiano, que o músico disse ter se identificado rapidamente, pelo estilo melódico. Em 1995, a Legião faz seu último concerto, e três meses antes de morrer, Renato grava o disco Tempestade, trazendo densas músicas como 1° de Julho e Via-Láctea.

"Era muito triste e trágico, perceber que aquela pessoa estava indo embora para sempre, e aquela pessoa justamente, que traçou seu rumo e que tem uma influência muito grande no que você faz e no que você é hoje", comenta com saudades, o amigo e guitarrista, Villa-Lobos, sobre o estado debilitado que passou Renato, ao enfrentar a aids.

Em 1996, aos 36 anos, o talentoso poeta e músico, expira. Deixando-nos órfãs de sua voz grave, de suas letras repletas de poesia, e de seu grandioso talento.

Renato se foi, mas nos deixou um acervo maravilhoso de canções, e além delas, deixou-nos seu legado, de honestidade e principalmente de amor. Pois Renato, mais que ninguém, sabia que só a verdade liberta, e que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se pararmos pra pensar, na verdade não há...

Você e Eu

Seus olhos eram um abismo profudo. Tão negros, que num descuido, eu poderia me afogar. Seu cheiro, uma mistura eloquente, de almíscar, desejo e âmbar. Nos entrelaçávamos, entre medos e anseios. Nos abraçávamos, pele morna, entre beijos. Seus grossos fios de cabelos, enroscavam-se nos meus. Não havia nada além de nós, apenas estrelas e breus. A lua cintilava, angustiante, dependurada sobre o céu. Por entre árvores esvoaçantes, pontos brilhantes cortavam em rajadas cadentes e sibilantes, iluminando, em meio-lume a poeirenta estrada. Estávamos ali. Éramos dois, éramos um. Uma porção de uns. Apenas dois. Sentia sua respiração ofegante em meus pescoço, seus gemidos contidos em alvoroço, sua mão insaciável por me percorrer. Havia beleza estridente, gritante, entre atos e não hiatos, entre carícias e respirações.
Rapidamente, se desprendeu de mim. Tão abrupto, tão confuso, sentou-se. Eu o olhei, e pela primeira vez não tive medo, e me afoguei em seus olhos. Não houve nada. Apenas silêncio e afogamento. Não houve misericórdia nem salvamentos. E eu morri ali, naqueles olhos que me afogaram, entre poros que se dilataram, e gostas de suor que me molharam. Morri ali. Naquele instante, entre a lua e os arvoredos, entre poeiras e breus. Um só. Você e eu.