O Suicídio de Gusmão

Gusmão tinha aproximadamente quarenta anos, alguns cabelos brancos e nenhuma vontade de viver. Para ele, a vida era um mistério inútil, e a Terra, um mundo de loucos plenos. Loucos estes que Gusmão fazia questão de dividi-los em categorias: os loucos que acreditavam demais em divindades, os loucos céticos demais, os loucos que, segundo sua opinião, em vão tentavam desvendar o obscuro universo e tudo o que fizesse parte do mesmo, e os loucos, que para ele eram os mais sãos, que levavam a vida por levar, viviam por viver, e assim era Gusmão, um homem que existia, apenas.

Certo dia, nosso querido protagonista decidiu se matar. Afinal, ele não mais suportava o inferno que era existir. Ter de se manter vivo, comendo, bebendo e respirando, era para Gusmão rituais muito cansativos. Além de claro, o fato de que todo o ser humano, não vive sozinho, consequentemente todo homo sapiens, na maior parte de sua vida, deve se sociabilizar, utilizando meios para tal fim. Um desses meios é a linguagem, e Gusmão, odiava quaisquer sonidos provindos das pregas vocais. Era difícil e igualmente cansativo como respirar, o ritual da fala, pois, é preciso haver sincronia entre a fala e os pensamentos, cordas vocais e massa cefálica em junção, sendo esta, uma tarefa difícil para um simples mortal com uma imensa vontade de morrer.

Quando Gusmão decidiu ir desta para uma melhor, ficou imaginativo pensando em uma forma poética e bonita de se matar. Gostaria de poder morrer como grandes personalidades que suicidaram-se por ingestão de barbitúricos, mas Gusmão sequer sabia o que significava a palavra "barbitúricos", então, decidiu-se morrer por consequência de algo cujo significado fosse conhecido pelo suicida.

Naquele mesmo dia, Gusmão viu na tv um homem muito famoso que se matara com um tiro nos miolos, nesse momento, ele rapidamente pensou que com um três oitão nas mãos poderia fazer um grande estrago em sua massa cefálica, que pouco utilizava, e assim, poderia ir voando para os braços do Criador. Esta foi uma má ideia, já que poderia ficar irreconhecível perante seus parentes e amigos próximos. Mas, que amigos? Que parentes? Gusmão era um homem só, e gostava de ser só, pois desta forma, morrer se tornaria uma tarefa fácil, já que quando fosse para o céu, ou quem sabe, para o inferno, ele não levaria nenhuma imagem de um ente querido em suas lembranças. Mas será que nosso protagonista teria lembranças depois da morte? Será que ele continuaria existindo depois de um tiro no cérebro ou alguns barbitúricos no estômago? Estas questões perturbavam nosso Gusmão, que rapidamente tratou de afastá-las logo que elas surgiram em sua mente. Era melhor não raciocinar, quem muito raciocina pega gosto pela vida e fica temeroso perante a morte. Era melhor somente planejar a melhor forma de seu suicídio, se é que o suicídio possui uma melhor forma de ser efetuado.

E foi com um crescente medo da desistência da morte, que Gusmão, decidiu ir apressadamente à farmácia mais próxima. Caminhou a passos largos, observando os loucos transeuntes. Covardes, pensava Gusmão, vivem com medo da morte enquanto eu me entrego plenamente à ela. E assim ele seguiu, até entrar na pequena farmácia da esquina e deparar-se com um atendente cuja expressão era de profundo mau humor. Gusmão então pediu-lhe calmantes, dez caixas, por favor, melhor vinte. E assim, o atendente pseudo-farmacêutico quis logo o dinheiro antes que algum fiscal da saúde, muito raro por aquelas bandas, entrasse em seu estabelecimento e tentasse averiguar a situação de medicamentos ilegais fornecidos sem receita médica. E foi com mais pressa ainda que Gusmão seguiu para seu velho apartamento, e enquanto seguia, imaginava o êxtase do exato instante em que deixaria de ser um homem e passaria a ser... bem, Gusmão não sabia o que seria depois da morte, apenas sabia que deixaria de ser humano, e isso já lhe agradava e aquecia a alma.

Já nas redondezas de seu apartamento, Gusmão teve um relampejo de pensamento que em voz gritante que questionava o motivo de ele estar desistindo de tudo. Não seria ele o covarde, de viver com medo da vida e por isso se entregar confortavelmente aos braços da morte? Bem, Gusmão não quis saber de pensar, foi logo abrindo a porta do apartamento e se dirigindo até a cozinha. Encheu dois copos d'agua e abriu as caixas de remédios. Em seguida tomou um por um, num êxtase profundo, mergulhado numa alegria tão plena, que Gusmão até teve medo de se apegar a tais sensações e não mais querer morrer. Ingeriu gota por gota da água, comprimido por comprimido, enquanto repentinamente foi perdendo os sentidos. Em poucos minutos, estava caído por sobre o chão da sala, esperando inconscientemente a morte com uma forca e um manto preto buscá-lo. Porém, o que Gusmão não desconfiava é que uma mulher, a passar pelos corredores do prédio em que morava, o vira estirado inconsciente sobre a sala, e ela somente o vira, porque Gusmão, tão extasiado com a possibilidade da morte, deixara a porta de seu apartamento aberta. Em poucos minutos ele estava na ambulância a caminho do hospital.

Dez dias internado e nenhuma sequela. Qualquer pessoa se sentiria feliz, mas Gusmão, não. Buscou outras formas de se matar, mas nenhuma delas parecia eficaz o suficiente para levá-lo ao caixão. E foi buscando eficiência que este suicida de fios brancos deciciu comprar um revolver potente, já que uma metralhadora por aquelas bandas era algo raro e caro para um homem de posses limitadas como ele. Seguiu a pé em busca da sua salvação. Naquele dia Gusmão havia se decidido de que para algum lugar ele iria, céu ou inferno, mesmo ele acreditando que tais lugais eram extremamente desproporcionais e que os atos dos homens não mereceriam tanto.

Fumou alguns cigarros na estação e depois entrou no metrô. Sentou-se. Esperou calmamente os minutos se passarem, arrastando-se e levando sua vida juntamente com eles. Decidiu cerrar os olhos e imaginar como seria ter aquela escuridão para sempre. Que maravilha! Algo esplendoroso o esperava e ele mal pôde crer que faltava-lhe apenas o instrumento para levá-lo à escuridão eterna. Enquanto pensava, Gusmão viu entrar no metrô uma mulher. Estava vendo-a apenas de costas, assim pôde ver que ela possuía bonitas e longas pernas torneadas e bronzeadas que contrastavam nitidamente com a saia branca e a blusa vermelha que vestia. Belas costas, pensou Gusmão. E logo nosso suicida pôde ver que seu rosto, seios e cabelos eram mais bonitos que suas costas. Ela se sentara a seu lado, e para surpresa de Gusmão, tentava conversar com ele.

Foi assim que Gusmão percebeu que havia tanta vida em seus lábios vermelhos e em seus olhos rasos e grandes, que teve medo de morrer. Mas, logo seu medo se dissipou, pois ela descera na próxima estação, e ele se viu só novamente, sem esperanças para viver. Enquanto o metrô se arrastava, Gusmão encontrou no banco ao lado, onde a moça das pernas torneadas se sentara, um pequeno papel branco. Decidiu abri-lo, sabia que era feio abrir correspondência alheia, mas ele iria morrer mesmo, tinha o direito de fazer o que lhe desse na telha. E foi abrindo tal papel, que Gusmão encontrou um número de telefone e um nome, ambos escritos em letras negras, "Márcia". Num sobressalto, Gusmão decidiu embarcar no próximo metrô de volta para seu apartamento, tinha curiosidade de saber se a tal Márcia era a mesma gostosona do metrô. Seria a última coisa que ele faria antes morrer, afinal, ele tinha esse direito, não tinha?

Tentou ligar, porém, estava inseguro e envergonhado para realizar tal tarefa. Tentou se acalmar, e duas horas depois, o telefone da tal Márcia estava chamando. Um alô tímido, e algumas trocas de informações pessoais foram o suficiente para nosso Gusmão marcar um encontro com Márcia, que para a surpresa de nosso protagonista, era a mulher de lábios vermelhos do metrô.

No dia combinado Gusmão foi ao encontro da mulher, usando trajes formais e perfume importado, nosso herói chegou até o restaurante, levando algumas rosas vermelhas. Gusmão se dera ao luxo de vê-la, pois seria o último ato importante antes de claro, suicidar-se.

A conversa foi boa e só terminou no quarto de um motel barato no meio da estrada. Ela era linda, e aquele fora apenas mais uma regalia que ele dera para si mesmo, passar a noite com uma linda mulher, e desta forma poder morrer em paz no dia seguinte. Porém, quando o dia seguinte chegou, Gusmão estava pendurado ao telefone conversando com Márcia. Mais uma conversa apenas e então se suicidaria. Apenas mais um encontro e amanhã morro. E assim, sua morte foi sendo adiada a cada dia, estava apenas vivendo, e como era bom viver! Desta forma, a vida foi ficando fácil de ser prolongada, e a morte foi deixada para cada dia seguinte.

Passaram-se meses, e Gusmão, mais vivo que nunca, decidira deixar de lado toda aquela bobagem de suicídio. O céu nem o inferno eram o caminho que Gusmão queria para sua vida, agora, ele queria mesmo era sentir o céu e as carnes macias de Márcia. E assim, decidiram-se casar. Estavam apaixonadíssimos, e com vontade plena de vida, sabe como é quando se amam, e assim eles se sentiam: amantes, elouquentes e felizes. A vida era uma dádiva e a morte apenas algo inevitável, porém, algo que Gusmão tinha medo, algo para o futuro, pois, o presente estava ali, e era Márcia.

No dia do casamento, Gusmão vestiu-se como um noivo bem vivo deve vestir-se: gravata borboleta cor de sangue, sapatos brancos e terno brancos. Perfumou-se bem, entrou numa limusine e enquanto pensava na noiva já vestida toda de branco, pronta para ser sua esposa, sentiu um baque no peito, acreditou que fosse apenas emoção, felicidade demais para um homem que fora tão inerte e tão suicida como ele fora em tempos muito remotos. A limusine seguiu, e o mundo começou a girar mais depressa. É essa a sensação, pensou Gusmão, sensação de estar plenamente vivo, sangue pulsando nas veias, jorrando pelas artérias, coração saltitante demais, demais, demais... e de menos, estava parando aos poucos, os olhos amoleceram, e a respiração ficou fraca dentro de segundos. Agora, Gusmão sabia qual era a sensação plena da morte. Ao desconfiar que estava morrendo, entrou em desespero, porém, foi em vão desesperar-se. Dentro de alguns instantes, morreu sentado na limusine. Conseguira o que tanto buscara, a morte, e agora sabia que ela não era tão boa assim. E enquanto o motorista seguia com um cadáver no banco traseiro, Márcia, vestida toda de branco esperava incansavelmente seu noivo Gusmão .

Lua Nua

A
... lua
.........Soturna
................Tão clara
...................Tão nua
..................... A pintar o céu
.......................Lua de mel
........................Lua de fel
......................... A lua que
...........................se esconde
.........................Detrás da
....................nuvem escura
................. A lua nua
.............iluminando
........a ru-
... A

Velho Louco

"Permitir-me ser louca,porque todo mundo é, e piores são aqueles que não sabem que são, porque ficam repetindo apenas que os outros mandam."

(Paulo Coelho; "Veronika Decide Morrer")



Ele gritava e sua voz rouca ecoava na alma dos passantes daquela estação. Sua voz grave cortava o silencioso burburinho dos transeuntes que apressadamente seguiam a direção do próximo metrô. Eu ouvia. Ele era um homem e gritava. Ele era um grito e existia. Suas palavras desconexas seguiam sem direção penetrando nos ouvidos dos passantes incomodados com o "senhor dos gritos". As mulheres corriam com seus saltos altos coloridos e casacos de pluma. Os homens riam. Ele é um louco!, diziam. Um velho louco! Internem este homem! E ele,continuava a berrar aos quatro ventos, palavras desconhecidas, urros, lamentações sem sentido, gemidos amargurados. O mundo parou para ver o homem gritar. O mundo. Quê mundo? Aquele mundo, das mulheres de saltos altos, dos homens de ternos e cabelos penteados. Aquelas pessoas que andavam e que iam para o trabalho, que ganhavam e compravam uma nova tv, que ganhavam e compravam um carro do ano, um casaco de pele de uma chinchila ou de um guaxinim talvez. Eram aquelas pessoas que riam do infeliz homem sentado em meio a tanta gente normal. Aquele louco dos cabelos cinzas e olhos rasos que ouvia os passos batendo no chão. Parece um bicho!, surrussou uma senhora. E ele continuava a berrar, enquanto o mundo girava, enquanto as pessoas normais continuavam a matar chinchilas e outros animais, a trabalharem para comprar, a usar a miraculosa razão e inteligência para levar o progesso para a sociedade juntamente com a ordem é claro; destruindo tudo o que for um impecilho para a maravilhosa evolução do mundo. Afinal, é preciso, não é? É preciso destruir e é preciso rir dos loucos que gritam. E enquanto o mundo parara para ouvir seus gritos, o velho parara para ver a destruição do mundo. Seus lamentos eram por aquela gente que cortava a estação. Quem era louco, a sociedade da evolução ou o velho grisalho? As pessoas não sabiam e jamais poderiam desconfiar, mas o velho se sentara para ver a loucura do mundo, a insanidade da sociedade, e o mundo gritava estampando o rosto das pessoas. Fui para casa naquele dia, com a voz do homem latejando em minha mente. Coloquei para tocar uma música do Nirvana, e enquanto ouvia, me senti como aquele velho, incurralada pela falsa normalidade dos outros, e então, gritei.

Desmayarse


Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.


Lope de Vega

Escrito em 23/04/09

Estou bem. O sol continua nascendo no leste, o motorista continua saudando-me com "bom dia" às 6:15 da manhã, algumas oportunidades continuam surgindo, o pão continua derretendo a manteiga na mesa do café, a família sentada nas cadeiras e os amigos no banco. Tomamos refrigerante. Tomamos esperança. Eu estou bem, porém incompleta. E não sei se algum dia estarei totalmente preenchida. Talvez não.


Atemporal para mim.

Éro(s)tique


Quando tu te põe em mim,

Sinto o arfar de teu peito morno,

Que num suspiro sem fim,

Seca minha boca, molda meu contorno.


Saliva em minha pele cálida,

Abriga tu'alma em minh'alma

Me toca com língua tão ávida

Sustenta o anseio e a calma.


Fluímos de poros suados,

Famintos, movendo-se em ardor,

Gritando tão desesperados,

No ápice do profano amor.

Beni e os Cabeludos de Outrora


Á frente de uma paisagem marinha, grandes ondas debaixo de um celeste azul do céu, surge nosso herói: Bernardo Antunes, mais conhecido como Beni. Homem alto, de barba por fazer, grandes olhos e pés descalços, está a carregar uma bandeira, que o forte vento da maresia faz questão de agitar ao alto de sua cabeça.

Ao seu redor, homens e mulheres, vestindo roupas sugestivas, barbudos, cabeludos, coloridos. Bando de loucos corrompidos, diria a sociedade conservadora se os visse do modo como eu os vi, a carregarem não somente seus trajes, não somente suas bandeiras, mas também suas esperanças, seus desejos e o frescor de suas loucuras no auge da juventude. Carregam dentro de si o anseio de que podem mudar tudo, inclusive o mundo. São revolucionários, revolucionários pacifistas, que neste instante estão virando à esquerda para queimarem seus antigos aparelhos eletrônicos, enquanto no Vietnã soldados guerreiam. Eles queimam, pois quanto mais você tem mais você quer ter, e até conseguir tudo o que almeja você não estará livre.

Os foguetes estão partindo rumo à lua. As donas de casa estão comprando novas máquinas de lavar. Os homens de gravata estão cuidando de seus negócios. Soldados morrem no Vietnã. E os hippies queimam. Eu estou aqui, exatamente no ano de 1967 vendo-os queimar todo o símbolo de uma sociedade capitalista. Ninguém os vê, apenas eu, estou escondida atrás das ondas grandes que insistem em se debater contra as pedras. Beni está lá, e eu bem sei que após dois anos deste ritual que presencio, Beni estará em Woodstock, assistindo Janis Joplin, Grateful Dead e tantos outros artistas, por apenas dezoito dólares e o dinheiro da passagem para Bethel, dinheiro este que conseguiu vendendo seus artesanatos nas proximidades de sua tenda.

Os contra-cultura estão partindo agora. Seus acampamentos localizam-se a aproximadamente dois quilômetros de onde deixaram o fogaréu a céu aberto. "Paz, amor, felicidade" grita Beni, aos quatro ventos. Todos sabem o quanto a ditadura os inibe, afinal, para o sistema, eles são apenas drogados e loucos, que vivem carregando seus instrumentos musicais sobre os ombros, e caminhando com um baseado entre os dedos rumo ao sol. "Eles são hippies e não tomam banho", dizem as famílias de "bem". Beni ri, e eu sei que no auge de sua "loucura" ele consegue compreender o mundo como ninguém mais. Ele vê o que ninguém vê. O consumismo exacerbado iniciado há décadas atrás, que só se agrava com o passar do tempo, uma ganância que todos passaram a aceitar. Um conformismo que atingiria até a juventude. Modo de vida desumano. "É melhor ser bicho do que ser humano, ser bicho é ser livre, ser humano é viver sob uma ditadura capitalista." - dizia Beni, sempre que alguém questionava sobre seus ideais.

Eles cantam e tocam, e agora eu os vejo debaixo de chuva, ostentando sua bandeira hippie. Eu ainda os sigo, estão felizes como nunca. Tomam LSD para se anestesiarem, não suportam toda a merda no que o mundo tem se transformado. Fazem magia, jogam tarô, dançam com o vento. São livres da maneira como podem. Livres para amar e para cantar numa tarde chuvosa como aquela. Beni beija uma garota na boca, e logo estão enroscados sobre a areia fina. No dia seguinte estarão num pequeno centro urbano, tocando e fumando ao ar livre.

"São birutas" - dirão os passantes que os virão sentados no chão, "Birutas e drogados", Beni rirá novamente, pois é idealista e revolucionário, é pacifista, e entende o mundo como ninguém. "Cada um utiliza de sua própria droga pra se anestesiar, vocês consomem produtos, nós tomamos LSD e nos libertamos de vocês."

Com o passar dos anos, Beni adoecerá. Com o passar dos anos a sociedade passará a enfrentar problemas decorridos de nossos próprios atos, desde a violência até o aquecimento global. Anos se passarão. Décadas. Beni está lá agora, e depois de Woodstock ele é chamado de velho louco. Ainda ri, mas agora, ri apenas para esconder toda a mágoa que apossou sua alma. Sua ideologia ainda existe dentro de si. É livre, apenas mentalmente. Está só agora, ninguém mais quer mudar o mundo, nem mesmo os barbudos e cabeludos de antigamente. São capitalistas agora. Usam outras drogas, tomam outras bebidas, esqueceram-se de que um dia foram jovens, de que um dia foram hippies.

Beni está só dentre tantas pessoas que passam por ele num calçadão movimentado de uma metrópole. Ele não mais vive, sobrevive com o pouco dinheiro que consegue através de seu artesanato. Ele sabe que não mais poderá mudar tudo como acreditava. Beni está lá, caído no chão, recebendo as moedas, não para poder ir para Woodstock, mas para sobreviver durante a próxima semana, ou o próximo dia. Ele é mais uma vítima do capitalismo, mas eu sei que não venderá sua alma. Eu temo por sua infeliz morte, mas só a morte traria a liberdade dos velhos tempos, quando em 1967 Beni e sua comunidade queimaram seus aparelhos numa praia deserta. Eu estou disfarçada, não atrás das ondas gigantecas, estou atrás do muro, vendo-o sofrer por ainda ser fiel às suas ideias, enquanto eu as vendi por algum dinheiro na rua de cima, e agora faço parte do sistema.

Mas, ainda tenho esperanças, como tive décadas atrás. Ainda carrego guardado no mais profundo de minha'lma a liberdade, meus desejos e a esperança de que algum jovem seja tão louco e tão são, que tenha a coragem de ansiar mudar tudo, mudar o mundo, assim como Beni ansiou. Pois enquanto houver uma única pessoa com ânsia de revolução, o mundo não estará totalmente perdido.