Joana

Joana disparou quatro vezes depois de me amar. O primeiro disparo foi à distância, enquanto eu vagarosamente vestia minhas meias brancas, o segundo partiu do umbral da porta e os dois últimos, à queima roupa. Antes de morrer, olhei seus olhos castanhos por onze segundos. Sentia o gosto fresco de sangue vivo a encher minha boca. Escorria-me pelo queixo, pelo pescoço, pelo peito nu, pela cueca vestida às pressas, pingando até mesmo em minhas meias brancas. Joana matou-me, primeiro de amor e depois de tiro. Quatro tiros e três trepadas, muito bem feitas. Joana. Joana. Joana. Joana. Seu nome soou em minha boca por quatro vezes misturando-se ao sangue que brotava de minhas entranhas. A cada segundo, ficava mais difícil respirar. Em minha mente, um turbilhão de memórias (especialmente as da noite anterior): Joana e sua sensualíssima boca pintada de vermelho, Joana e sua sensualíssima boca pintada de vermelho e entreaberta, Joana, sua sensualíssima boca pintada de vermelho e entreaberta pedindo para que eu a beijasse. Eu a beijei. Ela manchou-me com seu batom. Trepamos surrealmente, e adormeci com a visão de um enxame de cabelos castanhos sobre o travesseiro. Eram os cabelos de Joana, cabelos que cheiravam à erva doce. Acordei no meio da madrugada e busquei-a, mas Joana não acordou. Ela, assim como eu, adormecera nua, suas formas salientando-se debaixo do lençol, atiçando-me. Adormeci novamente, e ao acordar não a vi, somente constatei que suas roupas ainda estavam jogadas no chão. Vesti minha cueca e enquanto vestia minhas meias, senti estrondos atingindo-me como raios cruéis que roubavam-me a vida. Era Joana e seus tiros. Ainda estava nua, segurando a arma com as duas mãos. Olhei para seus seios, seus cabelos desgrenhados, sua boca já pintada de vermelho, e senti um desejo insano por ela. Estava tão perto que eu podia ver sua íris desbotada, seus poros transpirando, sua boca. Tentei agarrá-la mas não pude, depois do quarto tiro acordei no inferno.

O chapéu que nunca usastes

Toquei tuas feridas, apalpando-as de cá para lá. Vi em teu rosto contorções grosseiras - desvendavam-te a alma. Ouvíamos Joy Division, som baixo da vitrola, do jeito como sempre costumávamos ouvir. Tu te embriagavas, e eu, jogava-me em teus braços, implorando-te. Logo veio-me com esse papo de doideira filosófica. Faltava-te um café e um chapéu à moda antiga. Tua voz e a música embalavam-me tão perigosamente que corri o risco de perder tuas divagações: tão doidas quantos sãs. Eu não podia julgar tua loucura, nem mesmo tua sanidade - e quem é que as pode julgar?
Ficamos em silêncio depois de teus atos, divagos. Não queria olhar-me, estava denso, num mergulho interior, como quem reflete a própria essência, e na procura de algo acaba por descobrir ser uma incógnita. Eu te mirava em pequenos flashes, para guardar alguns souvenirs teus. Você, recluso dentro de tua alma. Pensei no anseio que tinha, por vezes, em te rasgar, minhas unhas fincando-te lentamente, arrancando-te inteiro para mim. Sei que era impossível, mas, cá dentro, o impossível acontecia, e eu, te tinha. Foi em vão, nunca fostes meu, o apelo na garganta calou-se com o tempo, assim como Joy Division na vitrola. O chapéu, que nunca usastes, ainda estampa as visões que tenho de ti.
Fostes com o vento, tão leve a flutuar. Fostes sem um adeus ou palavra que o valha. Fostes a caminho de ti mesmo, e caminhando perdeu-te de mim. A vida tem desses mistérios a existirem dentro de nós pulsando como ela própria, como o Universo, como Deus. Respirei, aspirando o ar que enchia violentamente meus pulmões. Troquei o disco da vitrola e comecei a cantarolar outra canção, não em som baixo, pois não éramos nós - o nó se desfez, e entremeada aos acordes novos, havia somente eu.

Café da Manhã


O café gelava na xícara. Tão puro e fumegante. Você estava calado, e de seus olhos saltavam lágrimas brilhantes. Nunca me disse adeus, nem nunca quis dizê-lo. Tantos nós entremeados no meio da garganta, o meio fio, o engasgo, o pedaço de pão no prato, a manteiga derretida beijando a beirada do prato quebrado. Eu a lambia, e lambia também o açúcar do café que outrora fora fumegante. Silenciados. A manhã brotava, como uma maçã vermelha e fresca que nasce de uma macieira em flor. Você chorava, e eu não sabia necessariamente o porquê. Seus dedos tamborilavam sobre a mesa de mármore, como num ritual angustiante. Ouvia o barulho dos carros que já seguiam pelo asfalto, ouvia o barulho de uns poucos pássaros que se sentavam nos galhos secos das árvores do quintal. Não fuja, eu sussurrava caladamente enquanto levava a xícara até a pia e a enchia com a água cristalina de eternidade. Terminamos nosso café em silêncio, bebericando nosso adeus, lentamente, sugando cada gota daquele momento orvalhado numa manhã de outono. Sentei-me novamente, e entre mágoas olhei-o, e ele olhou-me com olhos partidos, como quem está para rasgar o coração e entregar-me os pedaços. Foi então que ri. Era uma situação ridícula. O amor era ridículo. Nós éramos ridículos. Tão ridículos a ponto de chorar enquanto tomávamos nosso café. Havia tanta dor contida naquele riso, tanta mágoa, que o riso transformou-se em pranto. Não quer mais café? Murmurei, e ele respondeu-me negativamente. Não. Então, pensei em pedir para que ele não fosse embora e não me deixasse em meio a cafés e pães amargos daquela manhã, mas ele se foi e eu fiquei bebericando minha tristeza e umas poucas gotas do gélido café que sobrara em sua xícara.

Grito


Não quis gritar. O grito seco preso na garganta me arranhava aos poucos. Tentei libertar-me de mim, mas estava presa ao meu próprio corpo. Tentei libertar-me da vida, mas se o fizesse, estaria cedendo às prisões da própria morte. O vão da existência me consome aos poucos, me queima lentamente, lentas chamas que fazem meu grito entrar em ebulição. As grades em mim sufocam, como a fumaça faz com as pessoas que as aspiram, e eu me aspirava, e eu respirava e arfava continuadamente num ritmo lento, ritmo incessante, ritmo da vida. Sobre mim mesma não sei muita coisa, sei somente que urge este grito, e que ele me arranha aos poucos e corrói minhas entranhas, confusos nós de existência. O mundo segue em sua órbita, enquanto o universo se expande de uma forma monstruosa, a caminho do desconhecido, quiçás a caminho de Deus. E, quem sou em meio a tanto tudo e a tanto nada? Sou um grito, um grito de existência que continua existindo mesmo sem ter pedido para existir. Grito que está morrendo mesmo sem ter pedido para morrer. Sou, e me basta. Vivo entre estes nós de existir e entre a confusão de ser. Tudo está envolto num mistério tão milagroso, que a nós, nos são somente reservados o direito de indagar, pois, as respostas estão no desfazer dos nós que nossas existências carregam na alma. Respiro, e sinto uma energia poderosa em mim. Deve ser o milagre de "ser", num lugar onde apenas as chamas e as águas poderiam existir. Deve ser no mais pungente modo de indagar, onde somente os deuses poderiam ter este direito. Então sou, indago, e, é neste momento que sinto o grito escapando de dentro de mim, transformando-se em vento, que venta, no momento em que eu sinto o nascer de um novo anseio, o crescer de um novo grito.

Ritual Pagão

Seus olhos esbugalhados acendiam a escuridão como um fósforo a iluminar o caminho. Sentia o cheiro e seus instintos gritavam contorcendo seu ser, dando nós em suas entranhas. Uma ânsia profunda. Atirou-se para o lado, e outra ânsia lhe atingiu como uma facada cortando o silêncio sepulcral. Seu estômago se embrulhava e ao mesmo tempo seus poros fumegavam numa sensação quase sombria.

E, de repente, lá estava. Seus braços foram pegos com outros braços. Tentou fugir de si, agarrar-se em suas convicções, mas, não haviam convicções. Outra ânsia, e o peito já arfava continuadamente. Tentou se desvencilhar novamente, e sentiu outra vez os braços a agarrando. Garras unhando-a num ritual satânico. Virou a face, e sentiu uma boca quente em seus olhos, em seu pescoço, em sua boca, sugando-a, extraindo o último fio de resistência que lhe restava.

Num grito mudo caiu ao chão. E logo sentiu em cima de si o peso de um outro ser que a sugava grosseiramente, enquanto suas mãos percorriam os mais estranhos caminhos que ela jamais se atrevera a percorrer. Olhou para o alto e sentiu o olhar dele como um toque profano. Mais que depressa tentou desviar-se, mas ele a agarrou novamente, garras de bicho, e a forçou a encará-lo durante longos momentos.

Tentou se arrastar para longe, mas não conseguiu. Uma força superior a segurava debaixo do corpo daquele que a dominava com garras, braços e dentes. Outro puxão, pêlo com pêlo, e se viu completamente desprovida de proteção. Os dentes a mordiam e as unhas a arranhavam, fazendo-a sangrar mortalmente, gota por gota escorrendo por entre ambos, num ato profano e selvagem.

Tentou pensar, mas não havia consciência, havia apenas instinto, de modo que, logo estavam dançando a mesma dança de seus ancestrais mais primitivos como num antigo ritual pagão. As ânsias cessaram, e a sensação de poros a fumegar aumentou gradativamente, passo por passo, nota por nota até chegarem ao êxtase. Estavam mais próximos daquilo que os cristãos dominavam de céu.

Ela conteve um grito, e ele, bicho que era a feriu gravemente em seu interior. Caídos permaneceram, respirando ofegantes. Fora um ritual de purificação. Ansiavam por mais, porém, a consciência já os atingira de forma atormentadora. Vergonhosamente tentaram-se esconder de si mesmos, tapar as lacunas e limpar o sangue de carne pulsante que insistia em escorrer incessantemente.

Ele não a olhara apenas se levantara vagarosamente num adeus mudo. Ela permanecera caída, enquanto a vergonha fora dando lugar a mais plena sensação de paz que já sentira. Sua alma divagava por entre o suor e o sangue, por entre os ares da existência. Gemeu de contentamento, e então adormeceu nua, pura, com um sorriso pendendo de seus lábios. Havia conhecido a verdadeira evolução: ser bicho, mulher-bicho, unicamente bicho. E, foi assim, sem consciência, que ela soube o quão milagroso era sê-lo.

O Suicídio de Gusmão

Gusmão tinha aproximadamente quarenta anos, alguns cabelos brancos e nenhuma vontade de viver. Para ele, a vida era um mistério inútil, e a Terra, um mundo de loucos plenos. Loucos estes que Gusmão fazia questão de dividi-los em categorias: os loucos que acreditavam demais em divindades, os loucos céticos demais, os loucos que, segundo sua opinião, em vão tentavam desvendar o obscuro universo e tudo o que fizesse parte do mesmo, e os loucos, que para ele eram os mais sãos, que levavam a vida por levar, viviam por viver, e assim era Gusmão, um homem que existia, apenas.

Certo dia, nosso querido protagonista decidiu se matar. Afinal, ele não mais suportava o inferno que era existir. Ter de se manter vivo, comendo, bebendo e respirando, era para Gusmão rituais muito cansativos. Além de claro, o fato de que todo o ser humano, não vive sozinho, consequentemente todo homo sapiens, na maior parte de sua vida, deve se sociabilizar, utilizando meios para tal fim. Um desses meios é a linguagem, e Gusmão, odiava quaisquer sonidos provindos das pregas vocais. Era difícil e igualmente cansativo como respirar, o ritual da fala, pois, é preciso haver sincronia entre a fala e os pensamentos, cordas vocais e massa cefálica em junção, sendo esta, uma tarefa difícil para um simples mortal com uma imensa vontade de morrer.

Quando Gusmão decidiu ir desta para uma melhor, ficou imaginativo pensando em uma forma poética e bonita de se matar. Gostaria de poder morrer como grandes personalidades que suicidaram-se por ingestão de barbitúricos, mas Gusmão sequer sabia o que significava a palavra "barbitúricos", então, decidiu-se morrer por consequência de algo cujo significado fosse conhecido pelo suicida.

Naquele mesmo dia, Gusmão viu na tv um homem muito famoso que se matara com um tiro nos miolos, nesse momento, ele rapidamente pensou que com um três oitão nas mãos poderia fazer um grande estrago em sua massa cefálica, que pouco utilizava, e assim, poderia ir voando para os braços do Criador. Esta foi uma má ideia, já que poderia ficar irreconhecível perante seus parentes e amigos próximos. Mas, que amigos? Que parentes? Gusmão era um homem só, e gostava de ser só, pois desta forma, morrer se tornaria uma tarefa fácil, já que quando fosse para o céu, ou quem sabe, para o inferno, ele não levaria nenhuma imagem de um ente querido em suas lembranças. Mas será que nosso protagonista teria lembranças depois da morte? Será que ele continuaria existindo depois de um tiro no cérebro ou alguns barbitúricos no estômago? Estas questões perturbavam nosso Gusmão, que rapidamente tratou de afastá-las logo que elas surgiram em sua mente. Era melhor não raciocinar, quem muito raciocina pega gosto pela vida e fica temeroso perante a morte. Era melhor somente planejar a melhor forma de seu suicídio, se é que o suicídio possui uma melhor forma de ser efetuado.

E foi com um crescente medo da desistência da morte, que Gusmão, decidiu ir apressadamente à farmácia mais próxima. Caminhou a passos largos, observando os loucos transeuntes. Covardes, pensava Gusmão, vivem com medo da morte enquanto eu me entrego plenamente à ela. E assim ele seguiu, até entrar na pequena farmácia da esquina e deparar-se com um atendente cuja expressão era de profundo mau humor. Gusmão então pediu-lhe calmantes, dez caixas, por favor, melhor vinte. E assim, o atendente pseudo-farmacêutico quis logo o dinheiro antes que algum fiscal da saúde, muito raro por aquelas bandas, entrasse em seu estabelecimento e tentasse averiguar a situação de medicamentos ilegais fornecidos sem receita médica. E foi com mais pressa ainda que Gusmão seguiu para seu velho apartamento, e enquanto seguia, imaginava o êxtase do exato instante em que deixaria de ser um homem e passaria a ser... bem, Gusmão não sabia o que seria depois da morte, apenas sabia que deixaria de ser humano, e isso já lhe agradava e aquecia a alma.

Já nas redondezas de seu apartamento, Gusmão teve um relampejo de pensamento que em voz gritante que questionava o motivo de ele estar desistindo de tudo. Não seria ele o covarde, de viver com medo da vida e por isso se entregar confortavelmente aos braços da morte? Bem, Gusmão não quis saber de pensar, foi logo abrindo a porta do apartamento e se dirigindo até a cozinha. Encheu dois copos d'agua e abriu as caixas de remédios. Em seguida tomou um por um, num êxtase profundo, mergulhado numa alegria tão plena, que Gusmão até teve medo de se apegar a tais sensações e não mais querer morrer. Ingeriu gota por gota da água, comprimido por comprimido, enquanto repentinamente foi perdendo os sentidos. Em poucos minutos, estava caído por sobre o chão da sala, esperando inconscientemente a morte com uma forca e um manto preto buscá-lo. Porém, o que Gusmão não desconfiava é que uma mulher, a passar pelos corredores do prédio em que morava, o vira estirado inconsciente sobre a sala, e ela somente o vira, porque Gusmão, tão extasiado com a possibilidade da morte, deixara a porta de seu apartamento aberta. Em poucos minutos ele estava na ambulância a caminho do hospital.

Dez dias internado e nenhuma sequela. Qualquer pessoa se sentiria feliz, mas Gusmão, não. Buscou outras formas de se matar, mas nenhuma delas parecia eficaz o suficiente para levá-lo ao caixão. E foi buscando eficiência que este suicida de fios brancos deciciu comprar um revolver potente, já que uma metralhadora por aquelas bandas era algo raro e caro para um homem de posses limitadas como ele. Seguiu a pé em busca da sua salvação. Naquele dia Gusmão havia se decidido de que para algum lugar ele iria, céu ou inferno, mesmo ele acreditando que tais lugais eram extremamente desproporcionais e que os atos dos homens não mereceriam tanto.

Fumou alguns cigarros na estação e depois entrou no metrô. Sentou-se. Esperou calmamente os minutos se passarem, arrastando-se e levando sua vida juntamente com eles. Decidiu cerrar os olhos e imaginar como seria ter aquela escuridão para sempre. Que maravilha! Algo esplendoroso o esperava e ele mal pôde crer que faltava-lhe apenas o instrumento para levá-lo à escuridão eterna. Enquanto pensava, Gusmão viu entrar no metrô uma mulher. Estava vendo-a apenas de costas, assim pôde ver que ela possuía bonitas e longas pernas torneadas e bronzeadas que contrastavam nitidamente com a saia branca e a blusa vermelha que vestia. Belas costas, pensou Gusmão. E logo nosso suicida pôde ver que seu rosto, seios e cabelos eram mais bonitos que suas costas. Ela se sentara a seu lado, e para surpresa de Gusmão, tentava conversar com ele.

Foi assim que Gusmão percebeu que havia tanta vida em seus lábios vermelhos e em seus olhos rasos e grandes, que teve medo de morrer. Mas, logo seu medo se dissipou, pois ela descera na próxima estação, e ele se viu só novamente, sem esperanças para viver. Enquanto o metrô se arrastava, Gusmão encontrou no banco ao lado, onde a moça das pernas torneadas se sentara, um pequeno papel branco. Decidiu abri-lo, sabia que era feio abrir correspondência alheia, mas ele iria morrer mesmo, tinha o direito de fazer o que lhe desse na telha. E foi abrindo tal papel, que Gusmão encontrou um número de telefone e um nome, ambos escritos em letras negras, "Márcia". Num sobressalto, Gusmão decidiu embarcar no próximo metrô de volta para seu apartamento, tinha curiosidade de saber se a tal Márcia era a mesma gostosona do metrô. Seria a última coisa que ele faria antes morrer, afinal, ele tinha esse direito, não tinha?

Tentou ligar, porém, estava inseguro e envergonhado para realizar tal tarefa. Tentou se acalmar, e duas horas depois, o telefone da tal Márcia estava chamando. Um alô tímido, e algumas trocas de informações pessoais foram o suficiente para nosso Gusmão marcar um encontro com Márcia, que para a surpresa de nosso protagonista, era a mulher de lábios vermelhos do metrô.

No dia combinado Gusmão foi ao encontro da mulher, usando trajes formais e perfume importado, nosso herói chegou até o restaurante, levando algumas rosas vermelhas. Gusmão se dera ao luxo de vê-la, pois seria o último ato importante antes de claro, suicidar-se.

A conversa foi boa e só terminou no quarto de um motel barato no meio da estrada. Ela era linda, e aquele fora apenas mais uma regalia que ele dera para si mesmo, passar a noite com uma linda mulher, e desta forma poder morrer em paz no dia seguinte. Porém, quando o dia seguinte chegou, Gusmão estava pendurado ao telefone conversando com Márcia. Mais uma conversa apenas e então se suicidaria. Apenas mais um encontro e amanhã morro. E assim, sua morte foi sendo adiada a cada dia, estava apenas vivendo, e como era bom viver! Desta forma, a vida foi ficando fácil de ser prolongada, e a morte foi deixada para cada dia seguinte.

Passaram-se meses, e Gusmão, mais vivo que nunca, decidira deixar de lado toda aquela bobagem de suicídio. O céu nem o inferno eram o caminho que Gusmão queria para sua vida, agora, ele queria mesmo era sentir o céu e as carnes macias de Márcia. E assim, decidiram-se casar. Estavam apaixonadíssimos, e com vontade plena de vida, sabe como é quando se amam, e assim eles se sentiam: amantes, elouquentes e felizes. A vida era uma dádiva e a morte apenas algo inevitável, porém, algo que Gusmão tinha medo, algo para o futuro, pois, o presente estava ali, e era Márcia.

No dia do casamento, Gusmão vestiu-se como um noivo bem vivo deve vestir-se: gravata borboleta cor de sangue, sapatos brancos e terno brancos. Perfumou-se bem, entrou numa limusine e enquanto pensava na noiva já vestida toda de branco, pronta para ser sua esposa, sentiu um baque no peito, acreditou que fosse apenas emoção, felicidade demais para um homem que fora tão inerte e tão suicida como ele fora em tempos muito remotos. A limusine seguiu, e o mundo começou a girar mais depressa. É essa a sensação, pensou Gusmão, sensação de estar plenamente vivo, sangue pulsando nas veias, jorrando pelas artérias, coração saltitante demais, demais, demais... e de menos, estava parando aos poucos, os olhos amoleceram, e a respiração ficou fraca dentro de segundos. Agora, Gusmão sabia qual era a sensação plena da morte. Ao desconfiar que estava morrendo, entrou em desespero, porém, foi em vão desesperar-se. Dentro de alguns instantes, morreu sentado na limusine. Conseguira o que tanto buscara, a morte, e agora sabia que ela não era tão boa assim. E enquanto o motorista seguia com um cadáver no banco traseiro, Márcia, vestida toda de branco esperava incansavelmente seu noivo Gusmão .

Lua Nua

A
... lua
.........Soturna
................Tão clara
...................Tão nua
..................... A pintar o céu
.......................Lua de mel
........................Lua de fel
......................... A lua que
...........................se esconde
.........................Detrás da
....................nuvem escura
................. A lua nua
.............iluminando
........a ru-
... A