Choro contido
Tive de chorar incessantemente antes de dormir. Talvez porque eu sentisse tua falta, talvez pelo único e singelo prazer de chorar em uma noite como essa, estrelada de artifícios e de trovões iluminados. É algo que não sei explicar, é algo que sei sentir e por isso sinto, no instante, depois de um beijo romã perdido e de um futuro incerto. Acho que me esvaziei, e de achismos vou achando o mundo, pequeno ponto perdido no nada, faz de mim quem acho que sou. Neste agora, só sei que te sinto e que me faltas.
Souvenir
Morda-me
como se para ti eu fosse
a carne da maçã
Ama-me
no entremeio do momento
sem os arremedos do amanhã
Deseja-me
na eloquência do agora
na inexistência da hora
Compartilhe
teus lábios sedentos
que se tornaram violentos
à procura dos meus
Olha-me
desvende o que há em mim
o que já se perdeu
e o que nunca conheceu
E assim
Sou tua
No eterno momento
Do agora.
como se para ti eu fosse
a carne da maçã
Ama-me
no entremeio do momento
sem os arremedos do amanhã
Deseja-me
na eloquência do agora
na inexistência da hora
Compartilhe
teus lábios sedentos
que se tornaram violentos
à procura dos meus
Olha-me
desvende o que há em mim
o que já se perdeu
e o que nunca conheceu
E assim
Sou tua
No eterno momento
Do agora.
Amantes nômades
Seus olhos negros, percalços
O pulsar das veias
Verdes.
Traçando caminhos
Trançando.
Atravessando por entre os pêlos
Enquanto em olhos envolventes
Me chama de tua.
Entrego-me ao cuidado dos dedos teus,
Mãos
Pernas
Dentes
Nua.
O hálito escorre o desejo
Boca
Percorre-me
Crua.
Nos desvaneios,
(do amor?)
Quero o teu aconchego,
Beirar o abismo de ti
Sentir.
Em teus braços permanecer
Nas noites vãs,
Até que o amor se esvaia
Ao ver a primeira brisa da manhã.
Na estrada

Bebo um gole de cerveja barata. O mesmo bar poeirento e sujo beirando a estrada. Os olhos arregalados e a tentativa de abrir as portas da percepção. Alguma mescalina ou LSD, por favor. Não há garçons em espeluncas para me trazer experiências alucinógenas in vitro. Não há sonhos por aqui. Peço outra cerveja, enquanto olho para a ruiva de saias curtas. Tento me aproximar, mas percebo que há um cara do tipo texano de botas com fivelas e rosto empoeirado, ao seu lado. Miro-a fixamente, mas logo percebo a mão do texano em suas coxas, então volto a esperar por minha cerveja quente.
Bebo o líquido amarelento, quando o homem de chapéu coloca a garrafa sobre o balcão empoeirado. Aqui os balcões, as cadeiras e as garrafas de cerveja são empoeiradas. Os cabelos se empoeiraram e os corações também. A ruiva sobe as escadas com o homem do tipo texano de botas com fivela. A única puta do bar. O homem de chapéu tenta espantar o pó, enquanto eu alcanço o fundo da garrafa. Talvez mais uma dose, algumas notas e uma noite com ela. Mas parto, e deixo para trás apenas o suficiente para pagar o porre da noite passada e o jazz que pedi na vitrola.
Sufoco-me com a poeira da estrada e com a minha vida. Talvez ainda haja mais mescalina para disfarçar a solidão, talvez eu ainda encontre mais uma puta na beira da estrada, pedindo por dinheiro e por uma companhia que alivie a dor existencial que é viver. Giro a chave. No céu, um sol escondido pelas nuvens de poeira e pela fumaça de meu cigarro. À frente, os sonhos que perdi, e uma estrada inteira para percorrer.
Joana
Joana disparou quatro vezes depois de me amar. O primeiro disparo foi à distância, enquanto eu vagarosamente vestia minhas meias brancas, o segundo partiu do umbral da porta e os dois últimos, à queima roupa. Antes de morrer, olhei seus olhos castanhos por onze segundos. Sentia o gosto fresco de sangue vivo a encher minha boca. Escorria-me pelo queixo, pelo pescoço, pelo peito nu, pela cueca vestida às pressas, pingando até mesmo em minhas meias brancas. Joana matou-me, primeiro de amor e depois de tiro. Quatro tiros e três trepadas, muito bem feitas. Joana. Joana. Joana. Joana. Seu nome soou em minha boca por quatro vezes misturando-se ao sangue que brotava de minhas entranhas. A cada segundo, ficava mais difícil respirar. Em minha mente, um turbilhão de memórias (especialmente as da noite anterior): Joana e sua sensualíssima boca pintada de vermelho, Joana e sua sensualíssima boca pintada de vermelho e entreaberta, Joana, sua sensualíssima boca pintada de vermelho e entreaberta pedindo para que eu a beijasse. Eu a beijei. Ela manchou-me com seu batom. Trepamos surrealmente, e adormeci com a visão de um enxame de cabelos castanhos sobre o travesseiro. Eram os cabelos de Joana, cabelos que cheiravam à erva doce. Acordei no meio da madrugada e busquei-a, mas Joana não acordou. Ela, assim como eu, adormecera nua, suas formas salientando-se debaixo do lençol, atiçando-me. Adormeci novamente, e ao acordar não a vi, somente constatei que suas roupas ainda estavam jogadas no chão. Vesti minha cueca e enquanto vestia minhas meias, senti estrondos atingindo-me como raios cruéis que roubavam-me a vida. Era Joana e seus tiros. Ainda estava nua, segurando a arma com as duas mãos. Olhei para seus seios, seus cabelos desgrenhados, sua boca já pintada de vermelho, e senti um desejo insano por ela. Estava tão perto que eu podia ver sua íris desbotada, seus poros transpirando, sua boca. Tentei agarrá-la mas não pude, depois do quarto tiro acordei no inferno.
O chapéu que nunca usastes

Toquei tuas feridas, apalpando-as de cá para lá. Vi em teu rosto contorções grosseiras - desvendavam-te a alma. Ouvíamos Joy Division, som baixo da vitrola, do jeito como sempre costumávamos ouvir. Tu te embriagavas, e eu, jogava-me em teus braços, implorando-te. Logo veio-me com esse papo de doideira filosófica. Faltava-te um café e um chapéu à moda antiga. Tua voz e a música embalavam-me tão perigosamente que corri o risco de perder tuas divagações: tão doidas quantos sãs. Eu não podia julgar tua loucura, nem mesmo tua sanidade - e quem é que as pode julgar?
Ficamos em silêncio depois de teus atos, divagos. Não queria olhar-me, estava denso, num mergulho interior, como quem reflete a própria essência, e na procura de algo acaba por descobrir ser uma incógnita. Eu te mirava em pequenos flashes, para guardar alguns souvenirs teus. Você, recluso dentro de tua alma. Pensei no anseio que tinha, por vezes, em te rasgar, minhas unhas fincando-te lentamente, arrancando-te inteiro para mim. Sei que era impossível, mas, cá dentro, o impossível acontecia, e eu, te tinha. Foi em vão, nunca fostes meu, o apelo na garganta calou-se com o tempo, assim como Joy Division na vitrola. O chapéu, que nunca usastes, ainda estampa as visões que tenho de ti.
Fostes com o vento, tão leve a flutuar. Fostes sem um adeus ou palavra que o valha. Fostes a caminho de ti mesmo, e caminhando perdeu-te de mim. A vida tem desses mistérios a existirem dentro de nós pulsando como ela própria, como o Universo, como Deus. Respirei, aspirando o ar que enchia violentamente meus pulmões. Troquei o disco da vitrola e comecei a cantarolar outra canção, não em som baixo, pois não éramos nós - o nó se desfez, e entremeada aos acordes novos, havia somente eu.
Café da Manhã

O café gelava na xícara. Tão puro e fumegante. Você estava calado, e de seus olhos saltavam lágrimas brilhantes. Nunca me disse adeus, nem nunca quis dizê-lo. Tantos nós entremeados no meio da garganta, o meio fio, o engasgo, o pedaço de pão no prato, a manteiga derretida beijando a beirada do prato quebrado. Eu a lambia, e lambia também o açúcar do café que outrora fora fumegante. Silenciados. A manhã brotava, como uma maçã vermelha e fresca que nasce de uma macieira em flor. Você chorava, e eu não sabia necessariamente o porquê. Seus dedos tamborilavam sobre a mesa de mármore, como num ritual angustiante. Ouvia o barulho dos carros que já seguiam pelo asfalto, ouvia o barulho de uns poucos pássaros que se sentavam nos galhos secos das árvores do quintal. Não fuja, eu sussurrava caladamente enquanto levava a xícara até a pia e a enchia com a água cristalina de eternidade. Terminamos nosso café em silêncio, bebericando nosso adeus, lentamente, sugando cada gota daquele momento orvalhado numa manhã de outono. Sentei-me novamente, e entre mágoas olhei-o, e ele olhou-me com olhos partidos, como quem está para rasgar o coração e entregar-me os pedaços. Foi então que ri. Era uma situação ridícula. O amor era ridículo. Nós éramos ridículos. Tão ridículos a ponto de chorar enquanto tomávamos nosso café. Havia tanta dor contida naquele riso, tanta mágoa, que o riso transformou-se em pranto. Não quer mais café? Murmurei, e ele respondeu-me negativamente. Não. Então, pensei em pedir para que ele não fosse embora e não me deixasse em meio a cafés e pães amargos daquela manhã, mas ele se foi e eu fiquei bebericando minha tristeza e umas poucas gotas do gélido café que sobrara em sua xícara.
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